segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

COMO O BRASIL NÃO SE PREPAROU PARA A COPA EM 11 ANOS



Operários ainda instalavam os assentos na arquibancada da Arena da Baixada, em Curitiba, no dia 21 de janeiro


BBC - Atualizado em 30 de janeiro, 2014 - 15:08 (Brasília) 17:08 GMT


Tim Vickery

Do Rio de Janeiro para a BBC Brasil


"Estádios são coisas relativamente simples de se construir", disse a presidente Dilma Rousseff em visita à Suíça na semana passada. Isso de fato nos leva a uma pergunta óbvia: então por que tantos estádios para a Copa do Mundo estão tão atrasados?

A alta procura por ingressos e pacotes de hospitalidade ajudam a explicar a falta de paciência da Fifa com os prazos assumidos e não cumpridos – e não importa o que se pense sobre o relacionamento entre a Fifa e o governo brasileiro, a Copa do Mundo foi um negócio em que o Brasil entrou (e que o Brasil aceitou) voluntariamente.

Mas uma hora as máscaras caem, como quando o presidente da Fifa, Joseph Blatter, comentou recentemente que, em todos os anos que esteve no comando da entidade, nunca viu uma Copa do Mundo com tantos atrasos. Ele ainda acrescentou que o Brasil foi definido como país-sede da Copa de 2014 em 2007 e, portanto, acabou se beneficiando de um ano extra para se preparar – sete, em vez dos tradicionais seis.

E aqui ele não está sendo generoso. Porque a realidade é que o Brasil não teve sete anos para se preparar. Teve 11.

Um pouco de história: Blatter tentou levar a Copa do Mundo de 2006 para a África do Sul, mas ele perdeu uma votação controversa no Comitê Executivo da Fifa. Por razões políticas, ele não poderia fracassar de novo quatro anos depois. Por isso, junto com Danny Jordaan (presidente da Confederação Sul-Africana de Futebol), ele sugeriu a ideia de revezar o torneio entre os cinco continentes. Em 2010, ele conseguiu decretar: seria a vez da África. Problema resolvido.

E para onde a Copa do Mundo iria depois? A América do Sul, que não recebia o Mundial desde 1978, era o candidato óvio. Então, em março de 2003, Joseph Blatter anunciou que em 2014 seria a vez do subcontinente. O torneio havia dobrado de tamanho desde a Copa da Argentina, em 1978. Quantos países no continente seriam capazes de sediar um Mundial com os 32 times que jogam atualmente? Na realidade, havia apenas um - e assim, alguns dias após o anúncio de Blatter, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) declarou que o Brasil era o seu único candidato.

"Nenhum outro país estava na briga com o Brasil. A disciplina da competição, então, acabou não existindo e abriu espaço para alguns velhos vícios brasileiros; muita politicagem nos bastidores, muita esperteza e pouco progresso. De fato, a consequência da experiência brasileira foi o fim da ideia de revezamento de continentes para sediar a Copa do Mundo."

(É verdade que a Colômbia rapidamente rompeu com a Confederação e até lançou uma candidatura separada, mas nunca chegou a alimentar sérias esperanças. Ela estava apenas se protegendo contra a vizinha e rival Venezuela, que estava investindo pesado em estádios à época para sediar a Copa América de 2007. O real objetivo da Colômbia – que foi alcançado – era superar a Venezuela na disputa para sediar o Mundial Sub-20 de 2011).

Mas não dá para escapar da verdade: o Brasil sabia que iria sediar a Copa do Mundo de 2014 desde março de 2003. Não havia nenhuma tensão dramática quando, quatro anos e meio depois, a palavra "Brazil" saiu do envelope. Isso simplesmente confirmou o que todos já sabiam. Então por que outubro de 2007 foi tratado, não apenas pela mídia brasileira, como o ponto de partida?

Se tivesse havido uma disputa competitiva pela Copa de 2014, os países candidatos teriam que apresentar propostas. Uma das primeiras coisas que eles teriam quem fazer seria identificar as cidades-sede. Seria um princípio básico, necessário apenas para entrar na briga.

Mas nenhum outro país estava na briga com o Brasil. A disciplina da competição, então, acabou não existindo e abriu espaço para alguns velhos vícios brasileiros; muita politicagem nos bastidores, muita esperteza e pouco progresso. De fato, a consequência da experiência brasileira foi o fim da ideia de revezamento de continentes para sediar a Copa do Mundo.

Nenhuma decisão definitiva sobre as cidades-sede foi tomada até o fim de maio de 2009. Anos foram jogados fora. E uma vez que você fica atrás do relógio, os princípios básicos começam a valer; o custo do que você pode fazer aumenta. A escala do que você pode fazer diminui. E muitos estádios estão atrasados, com o orçamento estourado, enquanto inúmeros projetos de mobilidade urbana, a principal área que iria beneficiar realmente a sociedade, ainda não saíram do papel ou sequer têm chances de ficarem prontas a tempo.

Os estádios são bastante impressionantes. Ainda em 2007, o medo era que eles se tornassem Engenhões, versões maiores do estádio construído no Rio de Janeiro para os Jogos Pan-Americanos de 2007 que custou caro e nasceu obsoleto. Em vez disso, deixando de lado por um minuto a questão dos preços dos ingressos, os estádios são grandiosamente modernos. Eu não voltei lá depois da Copa das Confederações, mas achei a Fonte Nova, em Salvador, um lugar maravilhoso para se apreciar o futebol.


Os protestos contra a realização da Copa foram retomados no dia 25 de janeiro

Em termos políticos, porém, o fato de os estádios serem impressionantes cria um problema. Isso ficou implícito – e em muitas vezes explícito – na mensagem dos protestos que estouraram em junho e julho do ano passado; se os estados brasileiros foram capazes de construir essas arenas, então por que seriam incapazes de entregar os serviços públicos no chamado "padrão Fifa"?

O pentacampeão em 2002, Rivaldo, disse outro dia que "o Brasil vai passar vergonha na Copa". Não vejo exatamente assim, embora imagino que haverá problemas e que já ficou claro que o evento não vai cumprir seu potencial para a sociedade brasileira.

Mas a "vergonha" é de quem? Do frentista ou da recepcionista que moram na periferia de uma grande cidade, acordando às 4 da manhã todo dia para chegar ao trabalho? Por que eles deveriam se sentir envergonhados? Eles não tiveram qualquer participação no processo. Não houve nenhum debate público no Brasil sobre os objetivos da Copa do Mundo, sobre quanto a sociedade estava disposta a gastar e o que queria em troca. Por anos, não havia sequer um lugar no Comitê Organizador Local para representantes eleitores pela sociedade (o que, por sinal, é um contraste gritante com a Copa da África do Sul, onde havia um envolvimento generalizado no governo). As pessoas não são porta-vozes das suas nações ou responsáveis por ações da classe dominante.

Infelizmente, todos os atrasos que afetaram a Copa do Mundo de 2014 eram previsíveis. O que não era nem um pouco previsível foi a reação do povo durante a Copa das Confederações, saindo às ruas em centenas, milhares, desafiando a noção que os brasileiros tinham – tinham, no passado – deles mesmos de ser um povo tão passivo a ponto de ser idiota.

O país estava mudando bem em frente aos nossos olhos. O Brasil que existia até maio de 2013 se foi para sempre. Ainda não está claro aonde isso vai nos levar em julho de 2014. Mas aqueles envolvidos na luta positiva para formar uma nova nação não estão passando vergonha. Estão passando para o mundo a visão de um Brasil alternativo, um Brasil mais justo e mais competente.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

ATIVISTAS E DELINQUENTES


ZERO HORA 02 de fevereiro de 2014 | N° 17692


EDITORIAL INTERATIVO


As inesperadas manifestações populares de junho do ano passado trouxeram muitas lições para o país, entre as quais a de que os jovens da era digital têm consciência social e a de que as instituições tradicionais (governos, políticos, imprensa etc.) precisam se qualificar para recuperar a confiança do público. Mas os protestos também serviram para evidenciar a diferença entre os brasileiros que efetivamente lutam por um país melhor e aqueles que se aproveitam de situações de descontrole para agredir, depredar e defender interesses obscuros. E isso está ficando cada vez mais claro nesta nova onda de mobilizações que atinge as principais capitais, a maioria sob o pretexto de boicote à Copa do Mundo.

A violenta reação popular contra um jovem identificado como integrante do movimento Black Bloc, em São Paulo, é a prova de que os brasileiros começam a tratar de forma diferente manifestantes e delinquentes.

Protestar contra a Copa pode – ninguém está confortável com os gastos volumosos de recursos públicos nos estádios e nas obras de infraestrutura. Reclamar transporte público qualificado e tarifas razoáveis também é legítimo, considerando-se que este é um serviço essencial malcuidado pelos governantes. O que não é civilizado nem aceitável é queimar ônibus, quebrar vidraças, atacar bancos e prédios públicos, fazer arrastões e jogar pedras na polícia. Isso é delinquência.

As polícias brasileiras precisam ser mais prestigiadas. Da mesma maneira como devemos exigir policiais bem preparados para defender os cidadãos, sem abusar do poder que lhes foi conferido pela população, também temos que valorizar o trabalho desses servidores encarregados de manter a ordem pública. Por uma dessas deformações sociais difíceis de entender, começou a recair sobre os policiais brasileiros uma série de restrições. Mesmo quando chamados a controlar tumultos, eles são criticados por prender e por fazer uso de suas armas, mesmo quando se defendem de agressões. Ora, democracia não é exatamente isto.

Se não podemos aceitar policiais que agridem imotivadamente, também não podem nos servir policiais que não agem nem reagem. Se reconhecemos que há delinquentes entre os manifestantes, o mínimo que se pode esperar é que os policiais os reprimam para proteger os cidadãos. Melhor uma polícia ativa e eficiente do que a justiça pelas próprias mãos, como tentaram fazer os participantes de um evento em São Paulo ao identificar o black bloc mascarado protestando contra a Copa.

Depredadores e incendiários não podem mais ser chamados de manifestantes. Estes nasceram da democracia, aqueles querem assassiná-la.


O editorial ao lado foi publicado antecipadamente no site de Zero Hora, na quinta-feira, com links para Facebook e Twitter. Os comentários para a edição impressa foram selecionados até as 18h de sexta-feira. A questão proposta aos leitores foi a seguinte: Editorial diz que é direito e dever da polícia reprimir depredadores. Você concorda?

O leitor concorda

A polícia tem papel fundamental neste processo de separar os depredadores do cidadão que apenas deseja demonstrar seu desejo de mudança. Em qualquer concentração de pessoas (show de astros, jogos de futebol), infelizmente sempre tem a presença de marginais que estão lá com intenção de depredar, furtar saquear. Com os protestos de rua, não é diferente. Apenas não se pode confundir a voz das ruas com os depredadores. Os depredadores são meros coadjuvantes, que a polícia possa fazer seu trabalho e que a mídia não foque apenas neste aspecto e possa também mostrar a grandeza das manifestações e no momento histórico que estamos começando a viver.

Ivo Ricardo Lozekam Porto Alegre (RS)

Concordo 100%. É necessário reprimir com firmeza. O depredador merece cadeia.

Roberto Ribeiro Coimbra Rio de Janeiro (RJ)

Quem destrói o que é de todos, como os patrimônios públicos, com certeza não é um cidadão comprometido com sua cidade, muito menos com os cidadãos. Quem depreda o que é bem de todos deve, sim, ser reprimido e deve pagar pelos seus atos! Por isso penso que a polícia tem o direito e o dever de defender o que é de todos.

Adriana Vieira Lara Bagé (RS)

Estou sonhando ou, finalmente, parte da imprensa parece ter acordado para o estado de anomia, de desordem e desrespeito à lei que está se generalizando neste país? Estou sonhando ou, finalmente, parte da imprensa, como parece indicar este editorial, parece reconhecer sua parcela de culpa ao dar ares glamourosos a bandidos, vândalos e delinquentes, chamando-os, eufemisticamente, de black blocs, praticamente colocando-os na posição de agentes de transformação social? Estou sonhando ou, finalmente, parte da imprensa resolveu chamar bandido de bandido? Já não era sem tempo. Este editorial traz, implícito, um reconhecimento do nefasto erro, cometido por grande parte da imprensa, durante a cobertura das manifestações de junho passado, de não ter dado o respaldo necessário à ação repressora, constitucional, diga-se de passagem, da polícia aos delinquentes.

Luiz Oliveira Porto Alegre (RS)


O leitor discorda

Não concordo... Acho que todos esses manifestos são consequência de uma política que traiu demais seus eleitores e acredito que essa depredação nada mais é que uma forma de protesto, arrependimento pela escolha do candidato errado. Se alguém tem que reprimir, é o próprio político que induziu o povo a fazer isso. Enquanto há os manifestos, eles viajam para não ter que dar satisfação.

Alda Pegoraro Roeder – Nova Prata (RS)

RADICAIS CONTRA DILMA

ZERO HORA 02 de fevereiro de 2014 | N° 17692

KLÉCIO SANTOS* | BRASÍLIA

PROTESTOS. 
Radicais contra Dilma reúnem extremistas de esquerda e de direita e desafiam governo a contornar danos políticos e eleitorais


A preocupação é latente e tomou conta dos gabinetes mais estrelados do Planalto. O temor não é só com uma nova onda de protestos pelo país tendo como mote os gastos com a Copa do Mundo, mas os reflexos do caos urbano no resultado da eleição presidencial. Se antes as manifestações eram espontâneas, agora estão sendo planejadas com um viés claramente político e eleitoral. Um dos objetivos é desgastar Dilma Rousseff.

Dentro do governo há uma certa incompreensão com os movimentos e com o ecumenismo que se formou da esquerda à direita nas redes sociais. Nas ruas, essa miscelânea ideológica dá forma a um monstro sem cabeça, mas altamente inflamável e que pode resultar na escalada da violência. E o pior: por conta da visibilidade da Copa, o Brasil vai estar sob o escrutínio do mundo inteiro.

– As manifestações voltarão com força total, com um impacto eleitoral indefinido diante de um ambiente provável de confusão e desestabilização eleitoral – prevê o cientista político da UnB Ricardo Caldas.

Antes de serem tomadas por black blocs e grupos de direita, as manifestações de junho contavam com o apoio da sociedade. É isso que o Planalto quer evitar, atuando para isolar os extremistas e deixar nos protestos só os grupos radicais, que assustam e têm o repúdio da classe média. O problema é que até agora os governantes não souberam dar vazão aos anseios de grande parte da população contrariada com os maus serviços públicos e a corrupção.

Para o professor de História da UFRJ Francisco Teixeira, apesar de serem grupos diferentes, o denominador que os une é a “ineficácia do Estado”:

– É uma nova fase dos protestos, mais organizada, sem a característica espontânea de antes.

Os últimos protestos em São Paulo e em Porto Alegre são só uma amostra do que os governos terão de atravessar, com prováveis reprises das cenas de vandalismo e brigas. Teixeira prevê prejuízos eleitorais para todos os governantes se o quadro de São Paulo, onde um jovem foi baleado, for reproduzido em outras capitais durante a Copa. A capacidade de mobilização, porém, é uma incógnita. Especialistas ouvidos pelo Caderno Cultura, de ZH, publicado no sábado, não acreditam que haverá uma grande movimentação capaz de influenciar na eleição.

– Não vejo, por parte dos movimentos sociais e mesmo entre os partidos, uma estratégia capaz de levar o povo para as ruas e influir nas eleições – disse Roberto Romano, professor da Unicamp.

Mas o Planalto segue atento. Um plano envolvendo as Forças Armadas e que prevê homens aquartelados nas cidades-sede da Copa foi montado, demonstrando o grau de preocupação do governo. O uso das tropas não é descartado. Será alternativa no caso de fracasso das forças policiais.

Com receio de prejuízos políticos, o Planalto mantém o discurso de respeito às manifestações sem violência, mas, nos bastidores, a postura diplomática é deixada de lado. Com o afunilamento do calendário eleitoral, o PT montou reuniões com donos de institutos de pesquisa para avaliar o comportamento do eleitorado. Não quer ser surpreendido. Ainda durante a viagem a Cuba, Dilma mandou recados dizendo que quem não percebe a importância do Mundial tem uma “visão pequena do Brasil”.

Varredura na web

O monitoramento das manifestações foi reforçado, com apoio da Polícia Federal e da Abin. Os relatórios são quase diários, com dados sobre mobilizações, como a greve dos rodoviários em Porto Alegre, e varreduras na internet – habitat de grupos difusos que reúne a ultraesquerda, a extrema direita com tintas militaristas e religiosas, black blocs e até servidores que protestam contra Dilma e o PT exibindo seus contracheques. A presença da presidente é esperada para o dia 7 na inauguração do Beira-Rio, mas, se o clima na Capital continuar inflamável, é possível que a visita seja cancelada.

Nas redes sociais, extremistas de esquerda e de direta acabam se misturando. Declarações contra a Copa, por exemplo, aparecem tanto em páginas que defendem o transporte coletivo estatizado quanto em comunidades que exigem a intervenção militar contra o PT e o “comunismo”.

À espreita das ações desse exército de anônimos, estão os partidos de oposição, que nutrem a esperança de que mais uma vez a popularidade da presidente caia diante do recrudescimento das manifestações. Ricardo Caldas não acredita que eventuais votos que o governo venha a perder sejam carreados por PSB e PSDB.

Quem joga gasolina no incêndio são as siglas de extrema esquerda, que comandam grupos como o Bloco de Luta pelo Transporte Público. Militantes vinculados ao PSOL estiveram por trás da invasão à Câmara de Porto Alegre, mas seus dirigentes afirmam não apoiar atos de violência.

– O PT tinha a ilusão de que poderia tutelar os movimentos sociais. Não vamos inverter as coisas. As manifestações ocorrem porque alguém dá razão para elas. Há um disparate entre os gastos com a Copa e as necessidades das pessoas – afirma o senador Randolfe Rodrigues (AP), candidato do PSOL à Presidência.

A estratégia dos aliados da presidente contra o desgaste


Apesar da aparente quebra de diálogo, os movimentos sociais ligados ao PT guardam distância dos protestos.

A postura é inversa à da Força Sindical, central satélite do partido Solidariedade e parte do projeto político do deputado federal Paulo Pereira da Silva (SP), que decidiu engrossar o caldeirão estimulando greves em todo o país ao mesmo tempo em que se aproxima do PSDB na corrida eleitoral. Já a CUT, o principal braço sindical do PT, se mantém em silêncio. Seus dirigentes só se pronunciam em encontros sindicais.

– Nas manifestações verdadeiramente sociais, a CUT está junto ou organizando. Agora, não podemos compactuar com esses protestos surgidos nas redes sociais ou mesmo com encapuzados destruindo o patrimônio público. A CUT não vai entrar nesse ti-ti-ti – diz um porta-voz da central.

O discurso é da boca para fora. A CUT, o MST e até a UNE – dominada pelo PC do B, partido que controla o Ministério do Esporte – estão mobilizados para agir como antídoto, apesar de algumas defecções na base acabarem engrossando os movimentos e as greves. Em Porto Alegre, há militantes da CUT em litígio com a entidade e com o PT na greve dos rodoviários. Nos últimos protestos, uma integrante do coletivo Rebele-se, que tem como símbolo a estampa de Che Guevara, foi presa.

– Não é o papel da UNE ficar defendendo a Copa ou mesmo convocar estudantes para serem voluntários no evento. Os jogos não vão deixar legado algum, e os gastos desenfreados deveriam ser investidos em educação, na assistência estudantil – critica Katerine Oliveira, vice-presidente da UNE, que foi presa enquanto se refugiava em um hotel na Rua Augusta, em São Paulo, durante o protesto do último dia 25.

O próprio PT criou um exército nas redes sociais, disseminando o slogan #VaiTerCopa para servir de contraponto às manifestações. Na semana passada, secretários de comunicação do partido se reuniram para traçar estratégias contra os grupos conservadores da web, e o ex-presidente Lula usou o Facebook para criticar o jogo “rasteiro” da internet.

Já a Secretaria de Comunicação Social, que ganhou novo perfil, tem como focos a criação de uma campanha publicitária para defender a realização da Copa e a aproximação com blogs que fazem o enfrentamento na rede em favor do governo, algo reivindicado pelo partido.

É na internet que a multiplicidade de visões se difunde e ganha adeptos. Nesta ágora virtual, a verborragia principal é o #NãoVaiTerCopa, mas há espaço para tudo, com novas manifestações sendo programadas para fevereiro, sinal de que a situação está em ebulição. As vaias que Dilma tomou no Mané Garrincha não significarão nada, apenas uma remota lembrança, diante do estopim que se desenha no horizonte.


A TIPIFICAÇÃO DOS PROTESTOS

Os integrantes das mobilizações são variados, confundem-se entre si e não raro entram em conflito uns com os outros por divergências ideológicas. Veja como estão distribuídos

ANARQUISTAS 
- Berço dos black blocs, este grupo é composto por integrantes muito jovens – de 92 presos pela PM de SP, em outubro, o mais velho tinha 23 anos. Agem infiltrados nas manifestações. Não há demanda clara. Com brados genéricos como o “não vai ter Copa”, atuam anônimos no enfrentamento com a polícia e na depredação de bancos e prédios do governo. Grupos de esquerda os classificam como “fascistas”.

APARELHADOS - Integram sindicatos ou agremiações de esquerda, já habituados a protestos contra prefeitos, governadores ou presidente, conforme o partido. Clamam por melhores serviços públicos e aumento salarial para servidores. Ao longo de 2013, foram criticados por dar tintas políticas às manifestações. Alguns grupos foram para a rua para oferecer um contraponto aos adversários do governo Dilma.

IDEALISTAS - Integrantes de grupos, como o Movimento do Passe Livre (MPL), deram origem aos protestos de junho. Definem-se como apartidários e fazem demandas mais objetivas, como o cancelamento do aumento das passagens ou o esclarecimento de casos como o do pedreiro Amarildo. Seguem atuantes no Rio, mas perderam força no resto do país.

MINORIAS - Habituados a mobilizar eventos pacíficos em causa própria, como a Marcha das Vadias, engrossaram o caldo das manifestações de 2013. Vem desse grupo a maioria dos protestos contra o deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP). Entre as bandeiras, estão a igualdade entre os sexos, os direitos dos homossexuais e o fim da violência contra a mulher. Entre eles, também existem grupos ligados à defesa ambiental.

INDIGNADOS - Corrupção, gastos com a Copa e a precariedade dos serviços públicos são alguns temas lembrados pelo grupo que tomou o país em junho, mas arrefeceu. Entre eles, há quem prega nova intervenção dos militares contra o comunismo e o PT. Para o dia 22 de março, mobilizam em SP uma reedição da Marcha da Família, 50 anos depois do evento que antecedeu o golpe de 1964.

RELIGIOSOS - Em geral evangélicos, mas também com a presença de alguns católicos, são grupos mobilizados por líderes religiosos contra a tramitação de projetos que envolvam temas caros às igrejas, como o aborto. Com facilidade, aderem aos milhares a protestos mobilizados por pastores ligados à política. Atuam para neutralizar os grupos de minorias.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O RISCO COPA



REVISTA ÉPOCA, 31/01/2014 20h57

Confrontos em protestos, obras pela metade e custos que assustam turistas. O Mundial de 2014 enfrenta ameaças graves – e exige um esforço final que garanta uma festa cativante e segura

LEOPOLDO MATEUS, RAPHAEL GOMIDE, RODRIGO TURRER E VINICIUS GORCZESKI, COM LEANDRO LOYOLA, FLÁVIA TAVARES E ALINE IMERCIO




>> Trecho da reportagem de capa de ÉPOCA desta semana:

O suíço Joseph Blatter, presidente da Fifa, estava desconfiado desde o início. No dia 30 de outubro de 2007, ao anunciar o Brasil como sede da Copa de 2014, ele disse: “O Comitê Executivo decidiu, unanimamente, dar a responsabilidade, não apenas o direito, mas a responsabilidade de organizar a Copa de 2014 ao Brasil”. Responsabilidade. A palavra nunca aparecera em anúncios anteriores. “A Copa do Mundo de 2010 será organizada na África do Sul”, disse Blatter ao abrir o envelope em maio de 2004. “O vencedor é a Alemanha”, afirmou, em julho de 2000. Para 2014, não houve disputa. A Fifa criara um rodízio entre continentes, hoje abandonado, e era a vez da América do Sul. Como único candidato, o Brasil recebeu a Copa com pouco esforço – e Blatter quis dizer, para o mundo ouvir, que os brasileiros tinham obrigação de realizar um bom trabalho. Semanas atrás, ele afirmou: “O Brasil é o país com mais atrasos desde que estou na Fifa”.

A impaciência parece justificada. Blatter lembrou que o Brasil foi o único a ter sete anos para organizar a Copa do Mundo. A Alemanha e a África do Sul tiveram seis. A Fifa também não queria uma Copa tão complexa como a que o Brasil decidiu organizar. Preferia um torneio com dez cidades sedes, como fez a África do Sul. Em 1994, os Estados Unidos fizeram sua Copa em nove cidades. O governo brasileiro insistiu em realizar um Mundial com 12 sedes – mesmo número da Alemanha em 2006 –, com logística mais complexa e gastos mais vultosos. Nos últimos anos, o custo do Mundial subiu de forma escandalosa. A previsão inicial de gastos era de R$ 17 bilhões. Em junho último, o Grupo Executivo da Copa do Mundo (Gecopa) atualizou o total para R$ 28 bilhões e anteviu um acréscimo de ao menos R$ 5 bilhões até a bola rolar – um total de R$ 33 bilhões. Dessa quantia, a União será responsável por 85,5%, e o setor privado por 14,5% – cerca de R$ 4,7 bilhões. Em 2007, em Zurique, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmara: “Tudo será bancado pela iniciativa privada”.

A apenas quatro meses do início do Mundial, as cidades brasileiras deveriam estar coloridas com as cores do Mundial. Banners, bandeiras, Brazucas e Fulecos gigantes deveriam já alimentar um clima festivo no país. Em vez disso, o Brasil segue tomado pela dúvida sobre sua capacidade de organizar a Copa de forma satisfatória. Na semana passada, as inquietações foram estampadas na capa da tradicional revista francesa France Football, com a manchete “Medo sobre o Mundial”. Para a publicação, a Copa tornou-se uma “fonte de angústia”. A presidente Dilma Rousseff repete que o Brasil fará “a Copa das Copas”. Apesar das dificuldades, isso ainda é possível. Poucos países desejaram tanto receber o Mundial de futebol quanto o Brasil, e os ingredientes necessários para uma competição profissional, cativante e histórica continuam presentes. Para realizá-la, será preciso superar as várias ameaças e desafios que cresceram nos últimos anos. ÉPOCA relaciona na reportagem de capa desta semana os principais riscos.


24/01/2014

Copa do Mundo: vai ou não vai?

Manifestantes marcam protesto contra o Mundial para o próximo sábado. Enquanto isso, governo cria uma equipe só para lidar com movimentos sociais e mobilizações na Copa

BRUNO CALIXTO



Cartaz em São Paulo convoca manifestantes para um protesto contra a Copa do Mundo (à esq.) e imagem publicada na página do Facebook do PT defende a Copa do Mundo no Brasil (Fotos: ÉPOCA e Reprodução)

Se você tem amigos que gostam de discutir política nas redes sociais, já deve ter se deparado com essas hashtags. Pessoas descontentes com os elevados gastos nos estádios da Copa do Mundo, com os atrasos em obras e as controvérsias envolvendo o Mundial se manifestaram, na última semana, com a frase "Não vai ter Copa". Os que defendem a organização do Brasil para o torneio retrucam: "vai ter Copa". No ano da Copa do Mundo do Brasil, a internet se tornou novo palco da disputa entre governistas e manifestantes sobre a forma como o Brasil organiza o torneio.


A mobilização nas redes começou com a reclamação de usuários, transformou-se em um "tuitaço" - quando várias pessoas fazem comentários com o mesmo tema no Twitter para chamar a atenção sobre um assunto - e, nesta quinta-feira (23), chegou à porta (virtual) da polícia, quando ativistas anônimos invadiram os perfis oficiais das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e da Secretaria de Segurança do Rio. "E só para lembrar... #nãovaitercopa! Tchau, até logo.", escreveram os ativistas.

Essa movimentação nas redes não passa despercebida pelas autoridades. O governo federal está de olho nas mobilizações que acontecem nas redes sociais, e pretende colocar o time em campo para defender a Copa do Mundo. Os primeiros movimentos táticos já foram feitos neste começo de ano. No dia 9 de janeiro, o Diário Oficial da União publicou um decreto que remaneja dois funcionários para a Secretaria-Geral da Presidência da República, com o objetivo de "promoção do diálogo por ocasião da Copa do Mundo FIFA 2014". ÉPOCA apurou que não são apenas esses dois servidores os convocados para essa missão. Eles farão parte de uma equipe maior, criada exclusivamente para acompanhar os protestos relacionados à Copa e dialogar com os movimentos sociais.

O perfil do PT no Facebook também entrou no jogo. No dia 12 de janeiro, a equipe de redes sociais do partido publicou uma foto com uma imagem de torcedores no fundo e o desenho de um jogador de futebol. "Tá combinado. Uma boa semana para todos que torcem pelo Brasil. #VaiTerCopa", diz a mensagem do partido (confira imagem abaixo). O post, com mais de 700 compartilhamentos, teve mais de mil comentários, entre críticas ("Ok, mas #VaiTerEducação?") e apoio ao partido ("O que não vai ter é segundo turno") por parte dos usuários do Facebook. O partido voltou ao assunto dias depois, com a frase "Copa das Copas", usada pela presidente Dilma Rousseff em seu discurso no sorteio do mundial, em dezembro do ano passado. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, no entanto, o vice-presidente do partido, Alberto Cantalice, disse que a ideia não foi "fazer resistência à movimentação popular".

O primeiro grande teste para o governo está programado para o sábado (25). Várias manifestações estão sendo organizadas nas redes sociais, com o título "Primeiro grande ato em 2014 contra a Copa", nas principais cidades do país. Para o ato em São Paulo, até o fechamento desta reportagem, já havia 22 mil pessoas confirmadas pelo Facebook. Como vimos em manifestações passadas, no entanto, esse número não costuma ser o mesmo do de manifestantes que comparecem ao local. Ainda não é possível dizer se a mobilização terá sucesso.

O diálogo proposto pelo governo pode não ser fácil. Assim como aconteceu nas manifestações de junho de 2013, as mobilizações estão sendo marcadas na internet, de forma descentralizada e sem uma organização à frente. Mas alguns movimentos sociais que atuam na questão da Copa estão dispostos a negociar. A Articulação Nacional da Copa (Ancop) é uma delas. Segundo Larissa da Silva Araújo, do comitê do Distrito Federal da Ancop, os movimentos sociais têm várias demandas para cobrar do governo, caso sejam convidados para o diálogo.

Os temas mais urgentes cobrados são sobre as remoções por conta das obras da Copa, a criminalização de movimentos durante manifestações e a criação de um plano de combate à exploração sexual de crianças. Mas Larissa não descarta a possibilidade das manifestações impedir, de alguma forma, o mais importante torneio de futebol do mundo. "'Não vai ter Copa' representa os anseios do povo em relação a um megaevento que promete um legado, mas não o cumpre. Não é possível saber se vai ou não ter Copa, depende da conjuntura política do momento, da manifestação e articulação popular e muita pressão".

Mesmo com a mobilização nas redes sociais, tudo indica que "vai ter Copa" – o que não quer dizer que a turma do "não vai ter Copa" sairá derrotada. Como aconteceu na Copa das Confederações no ano passado – o evento teste da Fifa para a Copa do Mundo –, o Mundial deve ocorrer em clima de festa para uns e de protestos para outros. E manifestar a opinião faz parte do jogo.

A ESTRATÉGIA DE DILMA

REVISTA ISTO É N° Edição: 2306 | 31.Jan.14


Governo monitora comitês populares e líderes anarquistas para evitar que protestos, que certamente acontecerão durante a Copa do Mundo, adquiram maiores proporções e inviabilizem acesso aos jogos

Sérgio Pardellas (sérgiopardellas@istoe.com.br)



TAREFA
A presidenta Dilma Rousseff incumbiu o ministro
Gilberto Carvalho de fazer a ponte com movimentos sociais

Num ano que já teve rolezinho, ônibus incendiados e até um ataque covarde contra um trabalhador que dava carona em seu Fusca, o Planalto aguarda pela Copa do Mundo com a certeza de que o País irá conviver com protestos de natureza variada. A dúvida é o tamanho e a tonalidade. Na semana passada, ao iniciar um périplo pelas 12 cidades que irão sediar a Copa, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, procurava colocar a discussão em termos políticos. “A Copa vai ser um sucesso porque a população quer ver os jogos, quer torcer pelo Brasil e quer receber bem as torcidas estrangeiras.” Um levantamento do Datafolha junto a 10.403 torcedores, realizado um mês após os protestos apocalípticos de junho de 2013, mostra um ambiente favorável. Se 21% disseram não apoiar a Copa, 37% se disseram a favor e 26% deram apoio em parte. Para 75%, a Copa irá reforçar o “orgulho de ser brasileiro”. Para 51%, a Copa deixará um legado positivo. Nas cidades-sede, o otimismo é maior: 59% acreditam num saldo favorável.


PREVISÍVEL
Governo já sabe que terá de conviver com manifestações
contra a realização do evento futebolístico no País

Na Secretaria-Geral da Presidência da República, emissários sob comando do ministro Gilberto Carvalho monitoram tanto Comitês Populares da Copa, que reúnem famílias que foram retiradas de suas casas para a abertura de avenidas e demais obras públicas, quanto aquilo que o governo chama de “o pessoal de Seattle”: anarquistas que irão se mobilizar em torno dos estádios em busca de confronto permanente. Com os primeiros o Planalto acha que tem diálogo e desde já procura debater reivindicações. Com os segundos não haverá muito o que fazer – a não ser torcer para que sejam menos numerosos do que no ano passado e possam ser contidos em limites aceitáveis de cidadania. A cinco meses para o pontapé inicial, o Planalto encomendou às prefeituras de cada cidade-sede e aos respectivos governos estaduais um balanço específico de cada investimento anunciado. Os resultados – que devem ser desiguais – começaram a chegar a Brasília e devem ser finalizados no início da semana.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

AGENTES FEDERAIS DIZEM QUE NÃO HÁ EFETIVOS PARA GARANTIR PROTEÇÃO DE DELEGAÇÕES E AUTORIDADES NA COPA

CBN 29/01/2014 06h43

Governo afirma que haverá comando central para ações conjuntas entre os órgãos de segurança.


Por Raquel Miúra, de Brasília

Não só a presidente Dilma Rousseff está preocupada com a segurança na Copa do Mundo. Quem vai atuar diretamente na proteção de autoridades e atletas não esconde a apreensão. Agentes federais dizem que não há pessoal nem estrutura suficientes: são 32 delegações estrangeiras, além de presidentes e ministros de vários países. A Polícia Rodoviária e a Polícia Federal, além de estradas, aeroportos, fronteiras, combate ao terrorismo, devem assumir a escolta dos visitantes, missão quase impossível, segundo Jones Leal, presidente da Confederação Nacional dos Policiais Federais:

“Nós não temos condições de atender com segurança à sociedade e às delegações estrangeiras. E nós temos as nossas delegacias. Como ficaria? Abandonaríamos superintendências e delegacias que hoje já trabalham com efetivo mínimo? É uma situação muito difícil.”

A Polícia Federal diz que hoje tem dez mil agentes. Ao menos 500 deles estão afastados por problemas psicológicos e de saúde. Na Polícia Rodoviária Federal, o contingente é parecido, e mil novos policiais aprovados em concurso deverão integrar o efetivo, mas sem resolver a falta de pessoal e de condições de trabalho, segundo o presidente da Federação dos Policias Rodoviários Federais, Pedro Cavalcante.

“Tem muitos postos onde falta água. Não há comunicação entre a gente. Uma coisa notória na PRF é a carência de policiais para o dia a dia. Imagina para trabalhar em eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas”, afirma Pedro.



Para reforçar a segurança, as Forças Armadas vão atuar durante o Mundial. Na Copa das Confederações, foram cerca de 12 mil militares e, para os próximos eventos, a entidade afirma ser necessário ao menos o dobro. O trabalho será focado no controle do espaço aéreo, fronteiras e crimes cibernéticos. Haverá um comando único e, se for preciso, as tropas farão a seguranças das ruas, como explica o ministro da Defesa, Celso Amorim:

“Eles estarão ali para uma emergência e para proteger estruturas críticas, como usinas hidrelétricas e central nuclear. Um comando centralizado que permita tomar decisões rápidas se for necessário está sendo apresentado à presidenta e ela vai, naturalmente, dar sua decisão de como fazer.”

Diante da possibilidade de manifestações durante os jogos, o trabalho das polícias estaduais será crucial. Por isso, autoridades federais que cuidam da segurança na Copa vão percorrer as cidades-sede para fechar detalhes da parceria. Além da escassez de pessoal - nas manifestações de junho passado houve policiais militares com escala dobrada -, há falta de motivação. Em Brasília, por reivindicações salariais, a PM realizou a Operação Tartaruga, retardando as ações no combate ao crime.A 

ESTRATÉGIAS CONTRA A VIOLÊNCIA NA COPA

ZERO HORA 29 de janeiro de 2014 | N° 17688

PROTESTOS PELO PAÍS

A Copa começou nas ruas e nos gabinetes



Para o governo federal, será inevitável a deflagração de uma nova onda de manifestações pelo Brasil durante o Mundial. A fim de evitar que atos de violência manchem a imagem do país e garantir a segurança da multidão de estrangeiros prevista para desembarcar nos aeroportos das 12 cidades-sede em junho, o Planalto monta estratégias para amortecer o impacto das mobilizações populares, ao mesmo tempo em que tenta abrir o diálogo com os grupos descontentes com os gastos previstos para a Copa. Até mesmo um gabinete de crise informal já foi criado para monitorar as movimentações.

Enquanto se empenha em realizar a “copa das copas”, como a presidente Dilma Rousseff prometeu em sua conta no Twitter, o governo federal é assombrado pelo slogan “não vai ter copa”, espalhado por militantes nas redes sociais. A possibilidade de que o Mundial seja manchado pela eclosão de protestos generalizados e violentos virou o grande temor do Planalto, que se mobiliza para fazer frente à ameaça.

Sinais do que pode vir pela frente não faltam. No sábado, a área central de São Paulo foi convulsionada por um protesto que tinha como alvo específico a realização do Mundial promovido pela Fifa. O saldo foi de quebra-quebra, 135 detidos e um jovem baleado pela polícia.

Informada sobre o protesto durante uma escala em Lisboa, Dilma convocou uma reunião para hoje, logo depois de sua chegada de Cuba, para tratar da estratégia do governo. Foram chamados os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça), Celso Amorim (Defesa) e Aldo Rebelo (Esportes). Amorim declarou que a presidente já havia encomendado um programa de coordenação das entidades de segurança:

– Não só os ministérios da Justiça e da Defesa, mas também as autoridades estaduais, as polícias civil e militar, que farão o policiamento direto nas ruas. Não são absolutamente os militares (das Forças Armadas) que farão isso. Eles estarão ali para uma emergência, para proteger estruturas críticas, como as usinas hidrelétricas, como uma central nuclear.

A perspectiva é de que as manifestações só aumentem, à medida que se aproxima o 12 junho, data de início do Mundial. Para o Planalto, movimentos com reivindicações pendentes ou que tentam dar continuidade às manifestações populares do ano passado não vão desperdiçar a chance de ganhar visibilidade em um momento no qual os olhos do mundo – na forma de milhares de jornalistas estrangeiros – estarão pousados sobre o Brasil.

Um ministro de Dilma ouvido pela Agência Estado revelou que foi montado um gabinete de crise informal e permanente no governo federal. A presidente recebe informes reservados diários sobre as movimentações. Uma das estratégias do Planalto é desamarrar nós sociais, passíveis de gerar descontentamento.

Na semana passada, em visita a Porto Alegre, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, reconheceu que o tema virou prioridade no Planalto. Ele afirmou que o governo aposta no diálogo:

– Entendemos que em um país democrático é impossível haver um evento dessa magnitude sem que setores que tenham discordância ou que se contraponham ao evento não se manifestem. Vamos procurar abrir ao máximo o diálogo. Estamos já fazendo um processo de diagnóstico nas 12 cidades da Copa, no sentido de ver quais são as razões de descontentamento. Por exemplo, há problemas com remoções que não foram consideradas adequadas, há problemas de restrições excessiva em relação ao ir e vir das pessoas, à questão dos vendedores ambulantes.

Para o caso de o diálogo não ser suficiente e as forças policiais não conseguirem controlar a situação, o governo espera ter à mão uma estrutura à altura do desafio. A Força Nacional de Segurança Pública deverá ter de prontidão uma tropa formada por 10 mil homens. Há ainda possibilidade de utilização das Forças Armadas nas 12 cidades-sede. O plano é manter efetivos de reserva nos quartéis.

– As Forças Armadas têm seu papel no eixo defesa, e uma das atuações nesse eixo é a de ser uma força de contingência. O plano da segurança é fazer frente a qualquer ocorrência, e essa força de reserva é posta como possível – admitiu o coordenador da Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos, Humberto Freire.

Freire confirmou que, como parte da preparação para o Mundial, a secretaria gastou R$ 40 milhões na compra de armas de baixa letalidade, como balas de borracha e sprays de pimenta. Equipamentos de proteção individual para os policiais, como escudos, também estão sendo adquiridos.

Pontapé inicial e confronto em Natal

Na semana passada, Dilma Rousseff esteve em Natal (RN) para inaugurar a Arena das Dunas, um dos novos e contestados estádios construídos para a Copa do Mundo, e foi recebida com um protesto que degringolou em confronto com a polícia. Sem intimidade com a bola, a presidente deu o pontapé inicial simbólico no palco de quatro partidas da Copa.

Até ontem se especulava que Dilma pudesse estar em Porto Alegre na sexta-feira para solenidade de reinauguração do Beira-Rio, mas o ato está previsto para a próxima semana.


Mobilização anti-Copa nas redes sociais

Assim como em 2013, grupos contrários à Copa começaram o ano se articulando por meio das redes sociais. A hashtag #nãovaitercopa é uma das campanhas mais usadas para alertar sobre protestos previstos durante o Mundial. E as passeatas já se iniciaram. Em Porto Alegre, a primeira manifestação do Bloco de Luta pelo Transporte Público ocorreu na quinta-feira e, no sábado, um grupo se reuniu no Centro para reclamar contra a Copa. Na página do Facebook que organizava as ações do final de semana no restante do Brasil, os manifestantes criticaram a falta de “mudanças sociais e políticas” depois dos levantes em meio à Copa das Confederações, em junho – destacando que houve ato contra o Mundial em todas as cidades. “O Brasil precisa mudar, e não é no futebol. O clamor popular de janeiro em diante terá apenas uma voz: não vai ter Copa”, dizia o argumento do evento.

Militante do Coletivo Juntos, que integra o Bloco de Luta, Nathália Bittencurt, acredita que o mais correto seja utilizar a hashtag #vaiterluta:

– A Copa é uma pauta do Bloco de Luta, que tem muitas pautas. Dificilmente haverá uma separada em cada ato. Já estamos vivendo os efeitos da Copa há um tempo. Será um assunto trabalhado pré, durante e pós-Copa.

Pelo Facebook, os Black Blocs programam uma agenda com ações em diferentes pontos do país. Em Porto Alegre, o protesto seria em 15 de junho, no Beira-Rio.


Capital deverá ter reforço de PMs do Interior

O governo gaúcho está montando um plano para trazer policiais militares do Interior, caso a situação em Porto Alegre durante ou mesmo antes da Copa exija reforços. Em um cenário mais delicado, o secretário estadual da Segurança Pública, Airton Michels, admite solicitar um inédito apoio da Força Nacional de Segurança. Segundo Michels, a possibilidade de protestos antes e durante o Mundial virou a principal preocupação na área da segurança e entrou na pauta das reuniões preparatórias ao evento. Ele diz que a secretaria está preparada para deslocar 2 mil PMs do Interior, para se juntar aos 3 mil da Capital.

– Isso é muito possível. Temos condições de chegar aos 5 mil homens sem dificuldade, com rapidez. Se necessário, mobilizaremos até mais. Isso pode acontecer mesmo antes da Copa, se houver manifestações em maio.

O governo estadual avalia que não vai precisar recorrer ao auxílio da Força Nacional de Segurança Pública, mas deixa essa porta aberta. Já a necessidade de apoio das Forças Armadas é considerada pouco provável.

Como parte da estratégia para evitar problemas, a secretaria aposta em ações de inteligência, com identificação de pessoas que cometem crimes durante os protestos. A intenção é acompanhar esses manifestantes muito de perto, para bloquear sua ação.

– O Estado vai proteger as manifestações e agir como polícia quando houver crime. Antes da onda de protestos, trabalhávamos só com o evento Copa do Mundo. Agora, temos de nos preparar também para os protestos que podem ocorrer – avalia Michels.


A ESTRATÉGIA DO GOVERNO

Saiba quais são as ações previstas pelo Planalto para garantir a segurança no período da Copa do Mundo

FORÇAS DE PRONTIDÃO - Formada por policiais militares e civis voluntários, a Força Nacional de Segurança Pública deverá ter 10 mil homens à disposição durante a Copa, disponíveis para intervir caso as polícias locais precisem de apoio. As Forças Armadas também terão homens aquartelados. Serão cerca de 1,4 mil em cada cidade-sede. Eles só vão sair à rua em caso de solicitação direta da presidência ou dos governadores. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) manterá centros nos locais dos jogos. Ao todo, mais de 120 mil homens devem estar mobilizados nas cidades do Mundial.

ESTRATÉGIA UNIFICADA - Uma das preocupações do Planalto é que ações policiais mal executadas instiguem um clima de revolta nos meses anteriores à Copa. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, recebeu a missão de garantir a ascendência da Polícia Federal sobre as PMs. Além disso, ele vai se reunir com os secretários estaduais de Segurança para discutir estratégias padronizadas. Como parte desse esforço, o secretário-extraordinário de Segurança para Grandes Eventos, Andrei Rodrigues, começa hoje a levar orientações às forças policiais de cada cidade-sede. As primeiras são Natal e Fortaleza. Na capital gaúcha, o desembarque ocorre em 5 de fevereiro.

APOIO ÀS DELEGAÇÕES ESTRANGEIRAS - Depois da experiência vivida na Copa das Confederações, com batalhas campais nas cidades que sediaram jogos, as delegações estrangeiras ficaram assustadas com o que podem encontrar no Brasil neste ano. O governo federal pretende oferecer forças policiais para fazer a segurança das seleções e das autoridades estrangeiras não só durante as agendas oficiais, mas também nos momentos de lazer.

INTERVENÇÃO NOS ATOS VIOLENTOS - O governo está conformado com a ideia de que manifestações vão ocorrer. Mas não quer repetir erros da Copa das Confederações, quando houve confrontos enquanto a bola rolava. O princípio é permitir os protestos, esgotar as possibilidades de negociação e intervir apenas se houver vandalismo ou crime. O Ministério da Justiça já investiu R$ 40 milhões em armas de baixa letalidade para essa eventualidade.